Gostaria de começar este texto por dizer que nunca estive preso, mas que estive dentro de prisões por algumas vezes. Conheci as pessoas que lá estavam presas, as suas histórias e filosofias de vida.
Deixem-me partilhar esta experiência única convosco.
Em dois momentos marcantes da minha vida tive contacto com presidiários e seus "lares". Um foi na minha adolescência quando um amigo meu foi preso por roubar um carro. Outra foi há uns anos atrás quando tocava rock n roll com a minha banda e surgiu a oportunidade de dar um concerto na prisão (tipo aquele video do "st Anger" dos Metallica)
Para além de visitar o meu amigo regularmente, também trocava correspondência com ele e com outros que ali cumpriam pena. Estabeleci vários contactos com vários reclusos e embrenhei-me nas suas historias de vida. Achei uma coisa em comum em todos eles: Todos são filósofos.
Outra coisa que a prisão faz: Torna as pessoas em leitores assíduos e grandes artesãos. O resto vou partilhar agora com vocês:
1- A perspectiva da vida "lá fora" - Os reclusos ao fim de algum tempo de estarem presos, aceitam a prisão como o seu lar e ganham uma visão diferente sobre a vida em liberdade. Para alguns, a vida "la fora" pode não trazer melhores dias, pois tudo se torna uma incógnita: O emprego, a reinserção social, a aceitação da família, etc. Estar dentro das grades passa a ser a sua "zona de conforto".
2 - O síndrome da inocência - Alguns consideram-se inocentes e afirmam que não praticaram o crime de que foram acusados e condenados. Quem sabe, alguns têm razão. Contudo, o que me apercebi foi que há uma camada de reclusos muito jovens a cumprir pena. Portanto é natural que se sintam inocentes, uma vez que, inconscientemente crêem que a sociedade poderia ter feito mais por eles e talvez assim, não tivessem que entrar no mundo da marginalidade.
3 - Cada dia é um dia de risco- A vida nas cadeias não é fácil. Se és manso, abusam de ti. Se és duro, tens de lutar todos os dias, pois la dentro há sempre alguém mais duro do que tu. A solução passa sempre por fazer amizade com os mais antigos, os "bosses". Se caíres nas graças deles, és protegido e ninguém te faz mal, se não caíres nas graças deles... bem, há que lutar pela nossa sobrevivência, nao é?
4 - Os reclusos desenvolvem os seus próprios códigos. - Uma das coisas que se aprende na prisão é os códigos internos. Ha códigos para tudo: Para avisar sobre perigos, presença de guardas, tráfico, trocas de bens, etc. Quem não conhecer os códigos, não sobrevive! - È quase como um PNL presidiário...
5 - O dia-a-dia dentro dos muros- É verdade que dentro da cadeia, existe roupa lavada, e a comida também não falta. Mas sobreviver à rotina diária que lhes é imposta não é fácil.
Dentro daquelas paredes, o dia é todo planeado: Existe uma hora de acordar, de contar presos, de tomar refeições, de tarefas diversas (trabalho remunerado), hora de recreio e por fim, o apagar das luzes para dormir.

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