sexta-feira, 27 de maio de 2016

O que eu aprendi com os presidiários

Texto de Alexandre Lonewolf


Gostaria de começar este texto por dizer que nunca estive preso, mas que estive dentro de prisões por algumas vezes. Conheci as pessoas que lá estavam presas, as suas histórias e filosofias de vida. 
Deixem-me partilhar esta experiência única convosco.

Em dois momentos marcantes da minha vida tive contacto com presidiários e seus "lares". Um foi na minha adolescência quando um amigo meu foi preso por roubar um carro. Outra foi há uns anos atrás quando tocava rock n roll com a minha banda e surgiu a oportunidade de dar um concerto na prisão (tipo aquele video do "st Anger" dos Metallica)

Para além de visitar o meu amigo regularmente, também trocava correspondência com ele e com outros que  ali cumpriam pena. Estabeleci vários contactos com vários reclusos e embrenhei-me nas suas historias de vida. Achei uma coisa em comum em todos eles: Todos são filósofos.
Outra coisa que a prisão faz: Torna as pessoas em leitores assíduos e grandes artesãos. O resto vou partilhar agora com vocês:

1- A perspectiva da vida "lá fora" - Os reclusos ao fim de algum tempo de estarem presos, aceitam a prisão como o seu lar e ganham uma visão diferente sobre a vida em liberdade. Para alguns, a vida "la fora" pode não trazer melhores dias, pois tudo se torna uma incógnita: O emprego, a reinserção social, a aceitação da família, etc. Estar dentro das grades passa a ser a sua "zona de conforto".

2 - O síndrome da inocência - Alguns consideram-se inocentes e afirmam que não praticaram o crime de que foram acusados e condenados. Quem sabe, alguns têm razão. Contudo, o que me apercebi foi que há uma camada de reclusos muito jovens a cumprir pena. Portanto é natural que se sintam inocentes, uma vez que, inconscientemente crêem que a sociedade poderia ter feito mais por eles e talvez assim, não tivessem que entrar no mundo da marginalidade. 

3 - Cada dia é um dia de risco- A vida nas cadeias não é fácil. Se és manso, abusam de ti. Se és duro, tens de lutar todos os dias, pois la dentro há sempre alguém mais duro do que tu. A solução passa sempre por fazer amizade com os mais antigos, os "bosses". Se caíres nas graças deles, és protegido e ninguém te faz mal, se não caíres nas graças deles... bem, há que lutar pela nossa sobrevivência, nao é?

4 - Os reclusos desenvolvem os seus próprios códigos. - Uma das coisas que se aprende na prisão é os códigos internos. Ha códigos para tudo: Para avisar sobre perigos, presença de guardas, tráfico, trocas de bens, etc. Quem não conhecer os códigos, não sobrevive! - È quase como um PNL presidiário...

5 - O dia-a-dia dentro dos muros- É verdade que dentro da cadeia, existe roupa lavada, e a comida também não falta. Mas sobreviver à rotina diária que lhes é imposta não é fácil.
Dentro daquelas paredes, o dia é todo planeado: Existe uma hora de acordar, de contar presos, de tomar refeições, de tarefas diversas (trabalho remunerado), hora de recreio e por fim, o apagar das luzes para dormir. 



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